Pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ USP) começam estudos para predição de antivirais da Covid-19. O objetivo é não só encontrar possíveis tratamentos para o coronavírus, mas também adquirir um banco de medicamentos candidatos para outros vírus que não só possam causar pandemia, mas que já estão presentes há muito tempo, como a raiva.

Para conseguir “prever” possíveis antivirais, é preciso primeiro fazer a compilação de sequências gênicas do vírus de interesse, no caso o Sars-CoV-2, a partir de bases de dados públicas. Com essas sequências separadas, faz-se a predição da estrutura 3D da proteína.

Depois de prever essa estrutura, ela é então usada como modelo para verificar a interação com outras estruturas 3D de compostos presentes também em bases de dados (algum deles já com funções antivirais, outros com funções diversas). Com isso, é possível ter uma ideia de qual é a eficiência das ligações de cada composto das proteínas virais e quais as consequências destes elos para a inibição do ciclo viral.

Segundo o professor Paulo Brandão, responsável pelo projeto, todo o processo depende do conhecimento da biologia básica do vírus em questão e de um profundo conhecimento teórico em bioquímica, o que só foi possível por conta da bioquímica Joana Aguiar, também desenvolve pesquisa similar para encontrar antivirais contra o vírus da raiva na FMVZ.

Brandão conta que desenhar antivirais sob medida a partir de estruturas virais já é um método utilizado há um bom tempo. Na avaliação do professor, a tecnologia deve ser ainda mais disseminada, porque a disponibilidade de antivirais pode acontecer mais rapidamente e fazer com que os mesmos cheguem às pessoas que precisam.

As pesquisas de Brandão começaram em março, logo no início da pandemia de coronavírus e funcionam a partir de uma simulação in silico da capacidade de compostos se ligarem a proteínas virais. Isso quer dizer que tudo é realizado por bioinformática, 100% em hardwares e softwares, com um enfoque denominado de molecular docking (método que prevê a orientação preferencial de uma molécula a uma segunda, quando se ligam a fim de formar um complexo estável).

Segundo o professor, este tipo de metodologia é muito importante porque “permite que se dispensem os testes in vivo, isto é, em animais de laboratório e in vitro em cultivos celulares em uma fase inicial de triagem, pois tudo é feito a partir de dados já disponíveis acerca do comportamento das moléculas em estudo.”

Logo, este tipo de estudo se configura como uma biologia virtual, em que a vida das proteínas virais em diferentes situações e com vários compostos candidatos à sua inibição é investigada exclusivamente in silico. Quer dizer, este tipo de tecnologia é capaz de acelerar o processo de eleição ou rejeição de determinado composto viral.

Além disso, esses testes são em geral estatisticamente consistentes antes que as fases seguintes sejam necessárias. Paulo Brandão também cita a drástica diminuição dos custos de prospecção de antivirais, já que tudo é feito no computador.

Os estudos realizados por pesquisadores da FMVZ-USP até agora tiveram como resultado mostrar que alguns antivirais propostos para a Covid-19 e largamente alardeados como sucesso mostraram-se bem menos eficientes do que alguns outros candidatos. E o professor Paulão Brandão reforça que “deve-se levar em conta que tratamentos para doenças virais são multivalentes, ou seja, envolvem não um, mas diversos antivirais, além de medicamentos que atuam nas moléculas do próprio paciente e não só do vírus.”

Vale citar também o apoio da Universidade de São Paulo (USP), que concedeu tempo e liberdade de pesquisa aos envolvidos.